Terça-feira, 6 de Março de 2007

SOBRE O ATLÂNTICO- I

                                                      

                                         

           

    

          

                                                           

    

                   

                                 Luanda - Baía e Avenida Marginal

                                                           

Casado a 13 de Novembro de 1966 e, tendo ficado em Luanda, seria suposto que, após cinco anos de permanência em Angola, primeiro para cumprir uma Comissão de Serviço na Força Aérea Portuguesa, e, depois, para exercer funções profissionais, de acordo com compromissos assumidos com três organizações: uma portuguesa, outra francesa e, ainda, uma americana.

Em princípio, admitíamos que tudo iria correr bem.

Mas o destino assim não quis. E, inesperadamente, comecei a sentir um certo mal-estar e a língua, tanto aparecia amarelada, como esverdeada.

Preocupados, eu e minha mulher, procurámos através de todos os meios clínicos a resolução do problema. Mas, os médicos não conseguiram diagnosticar, e as preocupações aumentavam dia a dia. Na consulta de um terceiro médico, e em conversa amena, o clínico perguntou-me se durante aqueles cinco anos de permanência em Angola, não tinha sido acometido por alguma doença que fosse comum apanhar em África. Efectivamente, quando ainda ao serviço das Forças Armadas Portuguesas tinha estado internado na Enfermaria da Base Aérea Nº 9 em Luanda com uma hepatite.

E, depois dessa situação, tinha viajado para Cabinda e, mais tarde, tinha percorrido toda aquela ex. Província portuguesa.

Reunidos os três médicos, consideraram que o meu problema estava relacionado com o regime alimentar e aconselharam-me a passar um período de férias na Metrópole. Com esta notícia, tanto eu como minha mulher ficámos num dilema.

Estávamos em princípio de vida e eu, trabalhador abnegado exercia três actividades: no CITA (Centro de Informação e Turismo de Angola); na Casa Americana Comercial e no Consulado Geral de França, no cumprimento dum horário devastador, mas as responsabilidades que tinha assumido com o casamento impunham-me uma remuneração económica que nos permitisse viver desafogadamente.

Entrava na C.A.C. pelas 08h00 e saía pelas 17h00, tendo uma hora de intervalo para o almoço. De seguida ia para o CITA, onde exercia a minha actividade até às 20h00, altura em que ia jantar. Terminava o meu dia no C.G.F., tantas vezes até de madrugada.

Esta situação deixou-nos a pensar sobre o que havíamos de fazer. Nada nos garantia que, após passadas as férias preconizadas pelos médicos no Continente, ao regressarmos a Angola, não voltaria a sofrer da mesma enfermidade

Ponderados os Prós e os Contras, e como os pais de ambos se encontravam em Lisboa, optámos por regressar a Portugal Continental e ver a hipótese duma colocação compatível com as minhas competências. Como estava nos quadros do CITA, lembrei-me de escrever uma carta para Lisboa, para a Presidência do Conselho de Ministros e solicitar que me informassem da possibilidade de ser transferido para um organismo similar na Capital. Passados dois meses, recebi um oficio assinado pelo Chefe de Gabinete do então Presidente do Conselho de Ministros com a informação de que “Sua Excelência o Senhor Presidente do Conselho deferiu o pedido de Vexa, dando conhecimento desta deliberação ao SNI (Secretariado Nacional de Informação)”.

Com metade do problema resolvido, iniciámos a missão: desmantelamento do recheio e, o que nos havia custado uma pequena fortuna ao montarmos casa, foi vendido ao desbarato, já que o meu estado de saúde obrigava a regressar rapidamente. Mobílias, electrodomésticos e outros bens, foram desaparecendo e a pouco e pouco, a nossa vivenda ficou vazia. A solução final foi instalarmo-nos num hotel de Luanda até ao momento do embarque.

O DRAMA DA VIAGEM

Porque todas as viagens entre Lisboa e Luanda e vice-versa tinham sido feitas de avião, desconhecia como se tratavam as viagens em navio.

Ao contrário, a minha mulher tinha viajado sempre por via marítima por ter medo de que o avião onde viajasse pudesse cair. E, por isso, tínhamos que nos socorrer duma viagem num dos paquetes que faziam o percurso entre Angola e Lisboa.

                                     

                                                    

Dirigi-me às Companhias Nacional de Navegação e Colonial de Navegação. Tudo parecia fácil, mas as respostas que nos foram dadas deixaram-nos perplexo: navios? Só daqui a um mês ou dois.

Estávamos em princípios de Maio e as despesas no Hotel estavam a tornar-se insuportáveis.

Mas aparece sempre uma alma caridosa quando estamos aflitos, mesmo que essa caridade seja em benefício dela própria. E, quando menos espero, aparece-me um senhor cheio de boa vontade que, ao ver a minha insistência no embarque, perguntou-me: não quer ir em Classe Suplementar?

Essa gentileza foi bem paga.               

  

 Porto de Luanda

 

               

Mal sabia eu o que era Classe Suplementar! Mas passados 15 dias fiquei a saber…Oh se fiquei. Foi no dia de embarque, depois de despachar a bagagem, quando entrámos no Paquete Quanza (que empreendia a sua ultima viagem de carreira).

Recebidos pelo pessoal de bordo, ficámos surpreendidos quando nos indicaram o local onde nos iríamos instalar. Cada um para uma camarata diferente. Eu para a dos homens, a minha mulher para a destinada a passageiros do sexo feminino. Depois de desolados com a situação, enfrentando um cheiro nauseabundo, mais uma calamidade se aproximava – o refeitório. Não só pelo aspecto e falta de condições, como a comida era intragável. Alimentávamos somente com o pequeno-almoço e às demais refeições, comíamos pão e fruta e bebíamos água.

                             

                                                Paquete Quanza

                                                              

Deambulamos durante dois dias nestas condições, parecendo os emigrantes italianos que embarcavam com destino ao Brasil ou aos EUA. Fizemos, durante aquele período, vida de miseráveis.

Até que, ao terceiro dia se fez Luz. Encontrava-me no Deque da Suplementar, quando me apareceu o Primeiro Comissário de Bordo. Dirigindo-nos a palavra disse: O senhor venha comigo por favor ao Camarote do Senhor Comandante. Interrogámo-nos sobre o motivo que ocasionaria este pedido. E, lá fomos.

O pior já nos estava a acontecer, seria muito má sorte se a situação se agravasse.

                                                                                    Detalhe interior do Navio

           

Fomos recebidos por uma pessoa que transpirava bondade e logo pensámos que o seu semblante sorridente não nos iria transmitir nada de mal. Começou por nos dizer que estava ao corrente das nossas refeições e do incómodo que nos estava a causar a forma como dormíamos. Contamos o que se tinha passado na tentativa de arranjarmos as passagens e, pelo desconhecimento, tínhamos sido vítimas de um logro. Tirando de uma pasta a nossa ficha de passageiro, com os dados que tínhamos dado quando nos inscrevemos ao balcão da CNN, disse: Pois com este curriculum, logo vi que alguma coisa de anormal se passou para que o meu amigo e sua esposa viajassem em Suplementar. Por tal motivo, chamei-o para lhe dizer que, a partir de agora, vai melhorar a sua estadia a bordo. Alegando mais: vão passar a usufruir de refeições em primeira classe e, imediatamente vão ser transferidos para um camarote de 2ª. Classe. E, quando chegarmos a S. Tomé e Príncipe, veremos se os três camarotes reservados para passageiros daquela colónia não se completam. Se houver alguma desistência, passarão a dormir em primeira classe.

Ficámos surpreendidos ao mesmo tempo que uma enorme alegria nos deu um novo ser, uma alma bem mais confortada. 

 

  O Oceano, esse mar azul

                

A viagem começou a ser diferente. A comer em 1ª. Classe, muitas vezes à mesa do Comandante, a dormirmos num camarote sós e à vontade, continuámos a viagem, mas, há sempre um mas… o Comandante anunciou aos passageiros daquela Classe que éramos um jovem casal de noivos. Foi uma gentileza que se tornou cansativa. Não havia festa ou acontecimento a bordo que não estivéssemos presentes. Os nossos amigos (de fresca data), achando graça à nossa condição de noivos, batiam-nos à porta do camarote com o objectivo de os acompanhar e assistirmos a todos os eventos… até às sessões de cinema.

 

 

sinto-me: deslizando
música: Ondulando
publicado por PIQUITÁ às 00:41
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